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Nos anos 40, numa cidade como Vitória da Conquista (BA), as pessoas eram despertadas para a música pelos métodos mais naturais possíveis: pelos cânticos de igreja, pelos violeiros, pelos menestréis que iam de cidade em cidade mostrando sua arte. E foi graças a cantadores como Zé Krau e Zé Guelê que o menino Elomar Figueira de Mello, aos 7 anos de idade, conheceu uma música que ele não estava acostumado a ouvir nos cultos religiosos que freqüentava com sua família.
Elomar tomava contato com elementos que, em um futuro bem próximo, marcariam sua obra. Eram as narrativas épicas, que apareceriam bastante não só em seu trabalho de músico, mas também em seu gosto por romances de cavalaria. E também as chamadas tiranas (espécie de cantiga de amor, em andamento lento) e parcelas (tipo de estrofe usada nos desafi os, com oito ou dez versos). Uma verdadeira escola de música para alguém que permanece um dos mais ardorosos defensores da cultura brasileira.
Desde o início, Elomar desenvolveu um estilo que une música caipira, modinhas e sons medievais
Na caatinga
Nascido em 21 de dezembro de 1937, Elomar conheceu uma realidade parecida com a dos personagens de suas canções, que têm clara conexão com o sertanejo lutador de Os sertões, de Euclides da Cunha, e com as obras do mineiro Guimarães Rosa. Mesmo tendo uma fazenda em Vitória da Conquista, a família de Elomar não esteve livre de difi culdades fi nanceiras, nem de ver de perto a vida dos retirantes nordestinos, que se hospedavam com eles. Era uma vida dura e sofrida, que Elomar cantou em músicas como Retirada (Vai pela estrada enluarada / tanta gente a retirar / levando só necessidade / saudade do seu lugar).
Essa música talvez seja o maior sucesso de Elomar. Gravada em 1973 em seu único disco lançado por uma multinacional, Das Barrancas do Rio Gavião (pela Philips, hoje Universal), ela entrou, só dois anos depois de seu lançamento, na trilha da novela global Gabriela. O disco marcava a entrada de Elomar no mercado fonográfi co, décadas depois de o cantador ter se iniciado nas composições. Na época, Elomar vivia na fazenda Duas Passagens, na caatinga baiana. Lá criava carneiros e bodes estes, batizava com nomes de libertadores de países da América Latina. Um deles, o bode Francisco Orellana (em homenagem a um desbravador espanhol), tinha o hábito de entrar na casa para comer os livros de Elomar e acabou gerando o personagem criado pelo humorista Henfi l, a quem o cantor dedicou o LP duplo Na Quadrada das Águas Perdidas, em 1979.
Numa época em que a Bahia comandava a MPB, por intermédio de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, Elomar mostrava o lado sertanejo do estado, mais próximo da imagem pública que o Nordeste tem, geralmente pouco divulgado. Elomar é um príncipe da caatinga, que o mantém desidratado como um couro bem curtido, escreveu ninguém menos que o poetinha Vinicius de Moraes, no texto impresso na contracapa do LP original. Vinícius, por sinal, convidou-se para passar alguns dias na fazenda de Elomar e ouviu dele: Pode vir quando quiser. Deixa eu só ajeitar minha casa e afastar um pouco minhas cascavéis e minhas tarântulas...
Quando fomos gravar Elomar, ele nos convidou para conhecer as barrancas do rio Gavião, diz o produtor do disco, Roberto Santana, referindo-se ao rio que passa por vários municípios da Bahia e inspirou diversas canções do menestrel. Fomos conhecer a fazenda dele e vi um casebre de chão batido, tendo ao lado um curral com as ovelhas. Dormíamos deitados em portas, que ele estava guardando para construir a casinha dele. À noite os morcegos voavam perto da gente, onças vinham comer os bodes que ele criava. Um estilo de vida que condiz com os temas que o cantador abraçou em sua discografia.
O cantor já editou 14 álbuns independentes, teve poucas apresentações na TV e seu currículo inclui, entre outras preciosidades, 80 canções e 11 óperas. Além de Das Barrancas do Rio Gavião, outro LP querido dos fãs é o já citado Na Quadrada das Águas Perdidas, que foi gravado no Seminário de Música da Bahia, mas por pouco não foi registrado na própria fazenda do cantor. Não precisa estúdio; conversa de vaqueiro, cantiga de grilo, budejo de pai-de-chiqueiro, se entrar na fi ta fi ca, faz parte, diz Elomar no texto do encarte. Elomar foi praticamente seqüestrado por amigos músicos para que gravasse o álbum num estúdio de verdade.
Cantoria sagrada
Desde suas primeiras canções, feitas nos anos 50, Elomar foi desenvolvendo um estilo próprio, que une música caipira, sons medievais e modinhas, além de letras em dialeto sertanejo, ou sertanez, como fala. Há também a religiosidade que aparece em suas letras e as referências a clássicos da literatura, pedaços da vasta cultura que Elomar possui.
As poesias de Elomar são como bilhetes para divindades, que ele coloca na fi gura de bodes, de carneiros, de um amigo. Aquilo é um fi lme, a obra dele é como uma fi lmografi a do interior da Bahia, diz Roberto, citando como exemplo as letras de O Pedido e de Na Quadrada das Águas Perdidas. São letras que misturam português de Portugal e linguagem do interior, e funcionam como um documentário da região dele.
Justamente por privilegiar o idioma sertanez, a obra de Elomar acaba funcionando como uma língua dentro de outra língua, criando verdadeiros épicos medievais com versos como Dá pressa in guilora a ingomá nossos terno / albarda as jumenta cum as capa de inverno, canta. O cancioneiro de Elomar apresenta duas tendências: a retomada de temas religiosos e medievalizantes e a preocupação em retratar o sertão baiano, sua paisagem sócio-histórica e sua gente. Na primeira, vê-se um uso cuidadoso do estilo formal aliado a formas antigas da língua; na segunda, é a fala local, interiorana, espontânea que se manifesta, num gênero substancialmente dramático, o espelho da vida no sertão brasileiro, explica no artigo Elomar e a língua sertaneza a professora do curso de Letras da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Darcilia Simões, autora de uma pesquisa língüística na obra do cantor, que gerou o livro Língua e Estilo de Elomar.
Por lidar justamente com uma cultura que está se acabando a do sertanejo típico , Elomar bate-se contra o que ele chama de culto às nulidades. O perigo é o não-pensantismo, afi rmou. Mas, de qualquer jeito, a pesquisadora Simone Guerreiro, autora do recém-lançado livro Tramas do Sagrado, que pesquisa o lugar da religião na música de Elomar, explica que a obra do cantor contempla, a seu modo, a modernidade. Ele não fala em computador, em coisas mais contemporâneas. Valoriza o medieval, o clássico. Mas escreve sobre a sertaneja que vai para São Paulo trabalhar numa indústria, sobre uma cena de espancamento na avenida Paulista. É possível ver o embate entre o sertanejo de hoje e o de antanho.
Independência
Elomar vive desde 1980 na fazenda Casa dos Carneiros, que se localiza na Gameleira, distrito de Iguá, distante 20 quilômetros de Vitória da Conquista, na Bahia. Hoje transformada em fundação, a Casa abrigará o acervo do artista, além de promover projetos artísticos, culturais, educacionais e de proteção ao meio ambiente. Após fazer uma série de shows históricos e de infl uenciar artistas como Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Xangai, Elomar faz poucas aparições na mídia, além de raros shows e idas à cidade grande.
Prefere cuidar de bodes, carneiros e de cafezais. A origem de tudo que aprendi está ligada ao campo. Meu embasamento ético, moral e religioso é de lá. Se eu saio e venho para outra estrutura totalmente diferente, que vai ser de mim?, disse ele.
O Elomar foi se distanciando da sociedade consumista, criou sua história em seu mundo e hoje vive lá. Ele independe de TV, de jornais, diz Roberto Santana, afi rmando que existem vários outros Elomares pelo Brasil afora, em especial na região do Vale do São Francisco pródiga em poetas, menestréis e artesãos que o resto do Brasil ainda não conhece. Gente que vive apenas de escrever e divulgar sua obra pelos lugares mais escondidos (e às vezes inóspitos) do Brasil e que, infl uenciada por Elomar, recorre aos próprios meios para publicar seus trabalhos. Eu sou a favor de criarem o Dia do Elomar em Vitória da Conquista. O Brasil tem que prestigiar mais seus ídolos, diz Roberto. A idéia está lançada.
Descubra mais sobre a vida e a carreira de Elomar, uma ode a nossa cultura popular
Site sobre vida e obra do artista:
http://www.facom.ufba.br/elomar/
Biografia de Elomar:
http://www.mpbnet.com.br/musicos/elomar/index.html
Trecho do programa Ensaio:
PARA SABER MAIS
LIVROS
Língua e Estilo de Elomar,
Darcilia Simões, Dialogarts
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