No país do exagero e das multidões, uma pausa para o silêncio
Texto: Marcia Bindo fotos:Tuca Vieira
Aqui a ilusão é realidade
slideshow-india01-70.jpg|Abundância de pessoas, riquixás, motos, macacos, barulhos, deuses, festas, vacas, brilhos. Na Índia tudo está no plural. Nada é subtraído, e sim somado. O exagero transborda nas construções e templos ornados, nas cores dos saris, nos cheiros das ruas, nos trens apinhados de gente, nas músicas estridentes, nos condimentos que ardem as línguas, nos musicais de Bollywood. Como pode um país tão extrovertido ao mesmo tempo exalar espiritualidade?
Este ensaio fotográfico filtrou uma Índia silenciosa, que não viaja nos cartões-postais coloridos de monumentos e marajás. Onde o sagrado está presente em rituais incorporados à vida comezinha, do banho cotidiano no rio para purificação à feitura de colares de flores dedicados aos deuses e mantras entoados no entardecer. Quatro grandes religiões surgiram nestas terras: hinduísmo (80% da população), budismo, jainismo e siquismo. E, não bastasse isso, a Índia é o segundo maior contingente de muçulmanos no mundo. (Banho matinal é uma tradição no lago sagrado de Pushkar, no Rajastão)|slideshow-india02-70.jpg|Mesmo passando pela colonização inglesa, a Índia teimou em não se ocidentalizar. Povos e línguas do subcontinente foram unificados em um país, que hoje é o segundo mais populoso do mundo (o primeiro é a China), com mais de 1 bilhão de habitantes. Povoados estão ligados por uma extensa rede ferroviária. O trem é o transporte de longa distância mais utilizado e um passeio pelas paisagens da Índia merece ser passado nas acomodações de alguma locomotiva decadente. Ali, cercado de olhares, você começa a perceber que não existe a palavra individualidade. O coletivo predomina, as famílias são valorizadas e você dificilmente se sentirá só. (Ferrovias conectam o país, como na ponte que cruza o rio Ganges em Varanasi, norte da Índia)|slideshow-india03-70.jpg|A beleza da Índia está nas pessoas e não na arquitetura. Homens andam abraçados e as mulheres caminham em grupos, mesmo as mais pobres parecem rainhas, vestidas de seda e prata. As pessoas se ornam e se pintam. Quando se cumprimentam, cruzam as mãos na frente do peito: “Meu deus interior saúda seu deus interior”. Há pureza e ingenuidade, mas também malandragem e tradição suspensas na poeira dos dias abafados. Na civilização mais antiga do mundo, o passado vive no presente. (Meninas visitam o forte da antiga colônia portuguesa de Diu, na península do Gujarat)|slideshow-india04-70.jpg|E cada dia parece um conto fantástico. Certa vez, numa viagem que fiz há sete anos, um homem leu a palma de minha mão. Outra vez, quase fui atropelada por búfalos. Um homem se apresentou como santo. Macacos roubaram minha roupa do varal. Um taxista abandonou o carro no meio da rua para rezar no templo. Uma festa de casamento invadiu a avenida. Magia, truque, realidade. Ou não. Por que, na Índia, nada é o que parece ser. (No país onde nada é o que parece ser, uma cena em Udaipur, no Rajastão)|