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Antes de começar a ler esta reportagem, queria convidar você a fazer um exercício. Experimente ir para um canto tranqüilo onde ninguém incomode por um tempo. Desligue o celular e certifique-se de que o lugar não seja barulhento. Leve papel e caneta. Preparado? Então vamos lá. Escreva no papel uma lista das coisas que você tem que fazer e que o estejam preocupando. Pense nos pepinos da casa, nas contas a pagar, nas tarefas do trabalho, nos desentendimentos dos seus relacionamentos, não deixe escapar nada. Pensou? Agora liste as situações que já aconteceram e que continuam atormentando por terem ficado mal resolvidas em algum canto lá no passado. O arrependimento por ter dito aquilo a um parente, o resultado do exame, tudo. Pronto? Certo. Se você fez a lista a sério, estão aí, na sua frente, todos os motivos para suas preocupações. Nesse papel está o conteúdo da maioria dos seus pensamentos. Bom, o exercício começa agora. Olhe bem para a lista e imagine dar férias de um dia para essas pendências. Sim, eu sei que são todas coisas muito importantes, que você não pode ignorar. Você vai voltar a elas, sim, mas só depois de amanhã.
Pare um pouco. Sinta como é ficar livre, mesmo que por um instante, de todas essas preocupações. Que tal? Sem as pendências, o que sobra em você, o que fica? Bem, o que fica é... você. Isso mesmo. Essa é a grande descoberta de quem resolve dar um tempo e jogar as perturbações do cotidiano para escanteio: entrar em contato imediato consigo mesmo. Afinal, se nossa mente fica o tempo inteiro conectada às coisas que estão fora da gente, não damos nenhuma chance para nos observarmos internamente. Os retiros de meditação servem exatamente para isso: abrir uma brecha nas preocupações com o mundo para se preocupar com você.
A solução, diz ele, é aprender uma atitude simples, mas revolucionária: dar uma parada.Mas, veja bem, aqui o sentido de parar não é o de fugir da vida, jogar tudo para o alto ou evitar responsabilidades. Pelo contrário, é entrar na vida e suas responsabilidades de uma maneira nova: percebendo o que é realmente importante, quais são nossos valores, e trazê-los para o cotidiano. "Parar é ficar sem fazer nada por um período definido, com o propósito de se tornar mais desperto e saber quem você é", diz David em seu livro A Essencial Arte de Parar (editora Sextante), uma espécie de guia para quem quer pisar no freio.
Essa prática, a bem da verdade, não é nada nova. Todas as tradições religiosas estimulam essa atitude de parar e ficar sozinho, em meditação, como algo necessário para uma vida mais plena. "No cristianismo é só lembrar o exemplo de Jesus, que freqüentemente passava longos períodos isolado. No budismo temos Sidarta, o Buda, que saiu do seu palácio e buscou sozinho na meditação a paz que procurava. E não podemos esquecer que, no islamismo, Maomé também se isolou", diz Fernando Altemeyer, teólogo e cientista da religião, ouvidor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Mas, por favor, não se intimide pela estatura espiritual dos exemplos acima. É possível retirar-se e meditar sem querer ser um novo profeta. "O que dá significado ao retiro é que quase sempre ele vem acompanhado de uma busca da interioridade. Quando isso não acontece, a pessoa apenas está viajando ou praticando o ócio", diz Altemeyer. Essa busca interior é o objetivo dos retiros de meditação, que podem ser feitos em alguma tradição específica ou não, em grupos ou sozinho, em casa ou fora, e durar de um dia a semanas. O que vale é perceber que a felicidade não está no mundo externo, nos outros, e sim dentro da gente.
Os retiros guiados, como os do templo Zu Lai, são feitos em grupo. Mas muitas pessoas preferem ficar em suas próprias casas ou então viajar para o campo para ficar a sós com seus botões, o que certamente exige mais disciplina. "Quando a pratica é feita em um retiro, tem sempre alguém apontando as faixas da estrada para você não sair da rota.Agora, se ela é feita sozinho, você precisa de mais determinação. Mas, à medida que vai trilhando o caminho e percebe que a experiência é boa, você vai se autoestimulando", diz Moacir.
Foi o que aconteceu com a produtora carioca Denise Chaer, de 28 anos. Por muitos anos ela participou de retiros nos Estados Unidos e na Índia. Há dois anos, decidiu fazer um retiro em casa. "Estava sem dinheiro e cansada, então aproveitei que meu pai ia viajar no Carnaval e fiz da nossa casa um retiro." Denise acordava por volta das 9 horas, meditava por meia hora, tomava café da manhã, lia um livro sobre meditação, escrevia em um caderno tudo que vinha à sua cabeça e caminhava na praia no final de tarde. Mais: passou a semana sem falar com outras pessoas."O grande segredo para o retiro dar certo é você estar disposto a fazer essa experiência - e se preparar para isso. Da mesma forma que nos preparamos para dar uma festa, pensamos no convite, cuidamos da comida, chamamos um DJ, você precisa se preparar e criar um bom ambiente para esse seu encontro com você" (leia dicas de como fazer um retiro sozinho na página 40).
Lembra do excesso de estímulos, citado lá no início do texto? Uma das conseqüências dessa dose exagerada é o estresse. Por isso, aprender a desligar-se voluntariamente é crucial para o bemestar físico e emocional. Se isso não ocorre,o corpo dá um jeito de fazer isso sozinho,por exemplo por meio de uma doença. Que o diga o economista Vítor Caruso, que chegou ao limite e desenvolveu um câncer. Ele descobriu na meditaçã uma ferramenta valiosa para viver melhor. "Com a prática, consegui entender o que é a paz interna. É preciso primeiro experimentar o que iss significa para poder transmitir e desejar isso para os outros.Um retiro pode trazer esse estado de paz", diz Vítor, que hoje, recuperado da doença, coordena o centro Ciência Meditativa, em Curitiba. Lá acontece uma vez por mês no final de semana o retiro de um dia em silêncio, sem foco religioso, onde são alternadas as práticas de meditação sentada e andando.
Existe uma metáfora muito bonita para esse momento de pausa. Tome a vida como uma melodia. Toda melodia tem notas - os acontecimentos. Mas sempre há uma pausa entre duas notas. Porque é exatamente durante a pausa que a qualidade das notas - e o significado da vida - nasce. Sem a pausa, a canção seria caótica, como uma sirene. É por causa desse momento breve, em que uma nota da música cessa e outra surge, que uma melodia ganha significado e beleza.
• Se mora sozinho, a experiência pode ser feita em casa. Se não, deixe para um período em que ficará só ou hospede-se em algum lugar tranqüilo.
• Avise amigos e familiares. A idéia é deixar o telefone desligado e o celular só para receber ligações em emergências.
• Deixe a despensa e a geladeira abastecidas, para não se distrair com compras. Alimente-se com comidas leves, como frutas e sopas.
• Leve roupas confortáveis e o mínimo de coisas possível. Não se distraia com escolhas banais.
• Esqueça televisão, computador, rádio e qualquer outro apetrecho eletrônico que o conecte ao mundo externo.
• Escolha um lugar para a prática de meditação sentado e estabeleça uma disciplina de prática (meia hora de manhã e à noite, por exemplo).
• Exercite o corpo com caminhadas e aproveite para praticar meditação ao andar. Lembre-se de levar a atenção para todos os momentos do seu dia - ao tomar banho, ao comer, ao caminhar.
• Procure escutar o silêncio - e a si próprio.
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