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Os primeiros relatos do surfe vêm do Havaí, em 1780, quando o capitão britânico James Cook viu os nativos deslizando pelas ondas em pranchas de madeira. Lá, o surfe era uma atividade social, que reforçava a estrutura hierárquica. Reis e nobres em geral possuíam as pranchas maiores e melhores e tinham preferência na onda. E muitas relações de poder eram decididas sobre a prancha, em competições de he'e nalu, como era chamado o esporte. Em havaiano, he'e quer dizer "derreter, correr feito líquido". Nalu refere-se ao movimento da onda quebrando. He'e nalu, portanto, significa mais ou menos "deslizar como uma onda" ou "na onda". Em inglês, surf vem da palavra surface, que significa superfície. Mas essa mania de deslizar sobre as ondas só decolou internacionalmente em 1950, quando explodiu na Califórnia ao ritmo da beach music. E chegou ao Brasil dez anos depois.
"Só sei que, quando estou surfando, gosto de curtir a solidão. Neste mundo que nos rodeia é difícil estarmos sozinhos e felizes. No mar, isso é fácil", diz o surfista e artista plástico carioca Rafael Ceppas, que busca no mar inspiração para suas telas. "Com a mente serena, consigo contemplar cardumes de peixes, aves pescando, barquinhos no horizonte, nuvens no céu. Às vezes não penso em nada. Outras vezes, fico tão feliz que paro para pensar como vale a pena viver."
Morando na capital paulista, o advogado Rodrigo Leite passa mal cada vez que descobre na internet a entrada de uma ondulação e não pode estar na praia. Mas, quando chega sexta-feira, Rodrigo tira a gravata e vai à forra. "O barulhinho bom das ondas quebrando vai relaxando e esvaziando a minha mente. Me sinto recarregado para mais uma semana de trabalho", diz.
Aceitar e respeitar essa imprevisibilidade do mar rende muito aprendizado para a vida. No trânsito, por exemplo. Por mais caóticas que estejam as ruas, você pode sempre mergulhar ao encontro do seu eu interior, seu oceano profundo, cujas águas estarão sempre calmas. Para o zen-budismo, a sabedoria está em ser flexível como um bambu e não rígido como um carvalho. No mar é a mesma coisa. Não adianta nadar contra a corrente. Você tem que seguir o fluxo, deixar a água te levar, ser humilde. Frente às ondas, ninguém tem direitos adquiridos. A onda não é minha, não é sua, não é de ninguém. É um exercício de desapego.
Lidar com uma força maior do que a nossa aprimora a intuição. No mar, ficamos de antenas ligadas, com os sentidos aguçados, como animais que somos. Para pegar a onda certa é preciso ter consciência do todo, da pedra na praia que ajuda a localização até o movimento da espuma que indica o sentido da corrente. Os sentidos se apuram e ficamos atentos ao momento presente.
O mar também ensina a tomar decisões rápidas e não ficar hesitando. É como diz um amigo meu: "O que mata é a indecisão". Resolveu entrar na onda? Vá até o fim. Se hesitar, já era, passou. Mas a vantagem, aqui, é que atrás de uma onda sempre vem outra. Ou seja, ao contrário de várias situações da vida, dá para testar mais de uma resposta para o mesmo problema. Exige um bocado de remadas e alguns caldos, mas toda boa lição é assim mesmo: exige algum sacrifício.
Acostumado a descer as maiores ondas do planeta, o big rider pernambucano Carlos Burle, 36 anos, diz que, sobre uma montanha de água, "o instinto de sobrevivência fala mais alto". Burle é viciado em doses cavalares de adrenalina e tira do êxtase desses momentos sua força para viver. Mas pergunte se ele tem medo. "É lógico que eu tenho. O medo é uma ferramenta importantíssima para mim. Se você não tem medo, você perde o parâmetro. Você só não coloca a mão no fogo porque sabe que vai se queimar. É o medo que te avisa o limite", diz Burle.
Para o surfista, cada um tem seu limite e seus próprios medos a superar. "Um menino que está começando pode sentir até mais adrenalina num mar de 1 metro do que eu num mar gigante." Para quem quer vencer o medo e ultrapassar os limites, ele dá o seguinte conselho: "Faça tudo em doses homeopáticas. Meditação, yoga, respiração e consciência corporal ajudam muito. Mas tem que ir passo a passo. No surfe não se pula degraus", ou seja, tome vários caldinhos, para depois encarar um caldão. E eu acrescentaria o velho ditado, que um pouco de cautela e caldo de galinha, assim como coragem e persistência, não fazem mal a ninguém.
Afinal, o surfe só diz respeito a você mesmo. Não é preciso superar ninguém. Só você e seus próprios limites. "Talvez essa seja a magia", diz o americano Kelly Slater, o Pelé do surfe. Para ele, "não importa quão bom você seja, você sempre tem algo novo para aprender". E, para aprender, só tentando, caindo e se levantando. Como uma criança aprendendo a andar. Caiu? Sobe na prancha, atravessa a arrebentação e tenta novamente. Numa boa. O importante é lembrar que é tudo parte da mesma brincadeira: a onda grande e a pequena, o equilíbrio perfeito e o caldo mais medonho. Afinal, como diria o Dalai Lama, a essência do surfe, ou melhor, da vida, é ser feliz. Aloha, Dalai!
DVD
• Shelter, Taylor Steele e Chriss Malloy
Na Internet
• www.almasurf.com.br
• www.surfersjournal.com
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