![]() |
![]() |
Sábado de manhã, 7 de outubro. Chove em Divinópolis, um pólo comercial na região central de Minas, a 125 quilômetros de Belo Horizonte. Duas amigas conversam animadamente sobre Adélia Prado, a filha mais ilustre da cidade.
Estamos na casa de Maria Cândida Guimarães Santos, 76 anos, amiga de Adélia desde a adolescência. Maria Cecília Guimarães Santos (apesar do sobrenome, não são parentes), 63 anos, conheceu a poeta há 40 anos. Criaram alguns meses atrás a Dasterça, paródia bem-humorada com a marca Daslu. Trata-se de uma sessão de filmes de arte, às terças, na sala da casa de Maria Cândida, seguida de saborosos lanches e prosa. Adélia só participou dos dois primeiros encontros. As amigas se entusiasmam ao falar da autora de Quero Minha Mãe, lançado este ano. Amigo é quando a gente pode ser a gente. É assim que ela faz a gente se sentir, diz Maria Cândida. Admiro a sensibilidade, a acuidade para ir na essência das coisas, diz Maria Cecília. Adélia não está presente.
E onde está Adélia? Adélia ausentou-se da cidade para descansar, depois de uma seqüência de viagens para diversos lugares do país. Contato-a por e-mail. A solicitação em torno da escritora aumentou consideravelmente em 2006 porque sua estréia na literatura, com o livro Bagagem, comemorou 30 anos. O lançamento do livro foi no Rio de Janeiro, em 1976, com a presença ilustre de Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector e outros nomões das letras. Três anos antes, enviara seus poemas para o poeta Affonso Romano de Santanna, que teve um papel de destaque no lançamento nacional da escritora. De lá para cá, seu nome foi sendo consolidado tão rapidamente quanto o sucesso e a recepção crítica do primeiro livro. Em 1987, a atriz Fernanda Montenegro protagonizou o espetáculo Dona Doida: um Interlúdio. Em 2000, foi tema dos Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, que documentam a vida dos mais importantes escritores brasileiros.
A editora Record está relançando toda sua obra poética e em prosa. São 14 livros publicados, e sobre essa obra a própria autora faz a seguinte avaliação: Uma coisa que me faz dar graças é nunca me sentir veterana. Sempre inicio a mesma coisa com susto e prazer de novata. Claro, de um patamar diferente. Uma das consagrações mais recentes de Adélia foi durante a 4ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no mês de agosto. Uma platéia de cerca de 700 pessoas se emocionou com sua fala e com a leitura do poema As mortes sucessivas. Muita gente chorou.
Para quem pensa que ela se surpreendeu com a cena, Adélia afirma: As pessoas todos nós se emocionam com filmes, teatro, música, visita a museus e poesia. São tocadas em seus afetos, e o choro é uma das reações possíveis. Pode ser também que sintam ódio. Indiferença só para quem estiver blindado pelo orgulho, que costuma fugir de emoções como o diabo da cruz.
Nascida em 13 de dezembro de 1935 em Divinópolis, Adélia completou 71 anos em dezembro passado. No seu livro mais recente, Quero Minha Mãe, a personagem Olímpia sente a proximidade da morte. Conversando com Adélia, cito uma passagem de Memórias, Sonhos, Refl exões, de Carl Jung, um dos pensadores por quem demonstra um interesse permanente: A idade avançada é uma limitação, um estreitamento. E no entanto acrescentou em mim tantas coisas: as plantas, os animais, as nuvens, o dia e a noite e o eterno no homem. Quanto mais se acentuou a incerteza em relação a mim mesmo, mais aumentou meu sentimento de parentesco com as coisas. Ela concorda. E diz: Também acho que o sentimento de parentesco com as coisas se acentua com a idade. Quem gostava só de Mozart começa a gostar também de passarinho e vice-versa. Converso com ela dias antes de meu encontro com suas amigas. Pergunto qual a relação da inspiração na qual acredita tranqüilamente com a rotina do dia-a-dia. O cotidiano é fonte permanente de surpresas para a literatura e a arte em geral? A inspiração e o religioso pertencem à categoria dos afetos. Por isso são vistos como pejorativos pelos que julgam que arte se faz com inteligência, com vontade e razão. Me passou pela cabeça que João Cabral, a despeito de sua excelente poesia, tinha vergonha de ser poeta, o que eu entendo. Somos uns pobres, a poesia nos suplanta, não é obra nossa e ainda assim pecamos se nos recusamos a ela. Ninguém tem mais que o cotidiano, armazém permanente para a ação criadora. Quem ficar esperando assunto e não olhar em volta está perdendo o mel da coisa.
Ancorada nessa visão, ela inaugura alumbramentos: A rotina perfeita é Deus. A rotina do imutável. De que maneira se extrai inspiração da rotina eu não sei, aí já estamos falando do mistério da criação (é mistério mesmo) que nos escapa. Sem contar a Adélia, conhecida como católica fervorosa, invento um evangelho particular, calcado em suas idéias, e que de certa forma apresenta algumas de suas preocupações principais. Evangelho em um único capítulo, com quatro versículos.
Versículo primeiro: Viver é estar dialogando com Deus, esteja eu escrevendo, fazendo comida ou respondendo a entrevistas. A vida é inteira, não pode ser por partes considerada. Eu inteira rezo, eu inteira escrevo, amo, choro, tenho raiva, rio. Qualquer separação nos reduz e é muito perigosa para a saúde.
Versículo segundo: O mandamento do amor confirma a necessidade de darmos ouvido à única lei (Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo), ao único caminho, à única ação efetivamente criadora em todos os níveis e sentidos da experiência humana. Não há mandamento de validade real se não se apóia na lei natural que no caso é o sentimento básico de amar e ser amado.
Versículo terceiro: A poesia vai mais além do que a filosofi a, nas tentativas de explicação do mistério da vida, porque ultrapassa a razão.
Versículo quarto: Um deus que pode ser explicado não explica nem minha dor de cabeça.
Como observou sua amiga Maria Cecília, Adélia vai fundo na essência das coisas. Para dialogar com sua inteligência sensível, com sua sensibilidade inteligente, penso em questioná-la sobre a presença do mal nos dias de hoje. O mal não cresce também na perspectiva de um mundo em que se perdoa cada vez menos? O mal hoje está onde sempre esteve, em nossos corações. É lá que devemos procurá-lo. Não perdoar é alimentar o monstro. Quem sabe disso deve tomar a iniciativa. Às vezes é o ofendido quem cria a possibilidade para o perdão acontecer, coisas como perdoa-me por me traíres. Senão, empacados como jumentos, o mundo não anda. Nesse momento da conversa, desloco-me, então, para agosto de 2005, quando participei do Salão do Livro de Belo Horizonte. Chovia na capital mineira. Adélia fala para uma platéia de aproximadamente 200 pessoas, hipnotizadas com sua presença, com suas histórias e idéias. Todos ouvem atentamente.
Quando era pequena, a biblioteca de sua escola não tinha sofisticação nenhuma. Estavam lá os livros, e os escolhia como se escolhem frutas na feira, lia o livro e não tinha que interpretar o que o autor quis dizer, não tinha nada disso. Era um gosto, um prazer, absolutamente natural com o texto.
Hoje se lê um livro para poder dizer o que o autor quis dizer. Você não pode apreciar como você come um doce. E livro para ela não tem diferença de um alimento, que no caso é um alimento de natureza espiritual. Nós precisamos do texto, precisamos da arte.
Quando Bagagem foi escolhido para um vestibular em Belo Horizonte, ela não ficou muito alegre porque sabia qual seria o destino desse livro na mão dos estudantes. Começaram a perguntar para ela: O que a senhora quis dizer com aquilo? Eu vou fazer prova e estou no maior apuro. Aquele poema está dizendo o quê? Então ela responde, sem rodeios: Quer dizer, se eu quis dizer eu não disse. E você não tem que interpretar a obra, você tem que adentrar a obra, conhecê-la, gostar ou não. O livro tinha que ter o preço do pão, do pão de cada dia, porque ele é também o alimento espiritual. Mas não estou falando de livro ruim não, só de livro bom.
Quando era pequena também descobriu a maravilha que era a palavra. A palavra abria para ela uma cortina de beleza e de experiência poética. E escrita numa língua inacreditavelmente bela. Ela acredita que tudo pode ser dito com a língua portuguesa. É impressionante a qualidade plástica da nossa língua. Parece uma cera. Você faz o que quiser com ela. E quando você chega na experiência mística, se você chega lá... Fala aqueles absurdos, usa paradoxos pra falar aquilo que não pode ser falado. Como fazia um mestre, que dizia: Deus existe tanto que nem tem Deus. É uma realidade tão absolutamente real que nem tem.
A poeta tem uma família grande. Casada com José Freitas, tem cinco filhos e oito netos.
E não abre mão da vida familiar. Os filhos e o marido tomam conhecimento dos textos que escreve. Mas querem saber se eu fiz a barra da calça, se tem botão pregado. É ótimo, minha mãe saiu no jornal, mas cadê aquela camisa minha? Isso para mim é de infinita importância.
Adélia lembra de um filósofo dizendo que o dom do poeta é encantar-se com aquilo que é natural porque se passar um boi voando todos vão olhar, inclusive ela. Olha, tem um bezerro voando ali, todos vão sair para ver. É fácil falar do extraordinário, mas admirar aquilo que é ordinário... O copo dágua, a vida familiar, a cozinha arrumada, o almoço sendo preparado, a campainha da porta, a vida. Isso que nos é dado a todos, aí mora a graça, aí mora a metafísica, aí mora a poesia. Disso eu não abro mão de jeito nenhum.
Falta alguma coisa? Eu acho que tudo é falta. O excesso é exatamente o excesso de falta. Excesso é excesso de carência. Tem um humorista que fala assim: O pobre é a pessoa que tem excesso de falta. Tem tanta falta que virou pobre e não tem nada. Eu acho que é um excesso de carência, é uma fome de sentido que leva você a escrever buscando esse sentido da vida. Parece um excesso, parece que está jorrando. Mas eu estou buscando o que eu não tenho. O que eu tenho é esse aparelho de sensibilidade para perceber a finitude da vida, a precariedade da vida.
Com vontade de se expressar não apenas pelo verso, Adélia Prado diz que gostaria de pintar e de escrever para teatro. São projetos, só desejo ou os dois? São só desejos. Desejar é bom. Sonhar é maravilhoso. E lá se vai Adélia, entre o sofrimento da condição humana e a alegria da fé, entre a paixão pelo cotidiano e o amor pelas palavras.
Desdobrável. Inabalável.
Como um de seus poemas.
Livros:
Bagagem, Adélia Prado, Record
O Coração Disparado, Adélia Prado, Record
Quero Minha Mãe, Adélia Prado, Record
Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site
Destaques da edição
Edições anteriores
Assine a revista
Folheie a edição