![]() |
![]() |
Prólogo
Explico ao senhor: eram mais de 50 volumes, a maioria enfadonhos, todos disputando o concurso literário Humberto de Campos de 1938.Aborrecidíssimo por ter que ler e julgar tudo aquilo, um dos jurados resolveu encarar de primeira um cartapácio1 de 500 páginas grandes, com uma boa dúzia de contos enormes, assinados pelo pseudônimo de Viator na vida real um jovem médico mineiro na casa dos seus 30 anos. O trabalho era sério com pontos elevados magníficos , porém alguns trechos desapontavam. Devo acrescentar que o experiente leitor enjoou- se de certas passagens e a isso se agarrou, quando no momento final votou o prêmio a outro livro, este nada impactante, porém correto do começo ao fim. O Prêmio Humberto de Campos foi para Maria Perigosa,de Luís Jardim. E o escritor Graciliano Ramos, o tal do jurado2, foi quem praticamente decidiu: defendeu seu veto a Viator bem na final com Luís Jardim, quando os dois volumes estavam lado a lado na banca finalíssima ao prêmio.Mas ficou com aquilo a lhe incomodar. Tanto talento tinha esse Viator... Só que, isso é certo, ainda carecia suprimir um conto ali, encorpar um personagem acolá, dar mais veracidade a momentos. Será que ele voltaria a aparecer?
Correu tempo e légua e o ano é 1946. E eis que Graciliano,modernista e autor do imortal Vidas Secas, tem em suas mãos um recém-lançado livro de contos. Estava tudo lá, os personagens inconfundíveis criados por Viator: a patifaria de Lalino Salathiel (no conto A Volta do Marido Pródigo), a figura notável de Joãozinho Bem Bem (em A Hora e a Vez de Augusto Matraga)... O volume de 500 páginas emagrecera bastante e muita consistência ganhara em longa e paciente depuração. O incrível é que os ajustes imaginados por Graciliano na época do concurso estavam, sabe-se lá se por obra de Deus ou do diabo, todos ali. O médico mineiro achara sua escrita macerando pedaço a pedaço aqueles contos, com lentidão bovina.Viator não se perdera, amadurecera. Suas linhas demonstravam inescrupuloso zelo com a língua, inventividade, e o significado de seus textos alcançava a alma humana com perceptível profundidade.“Seus tipos literários passaram a representar os problemas comuns da nossa humanidade”, comenta o crítico Antonio Candido. O livro nas mãos de Graciliano intitulava-se Sagarana3. Seu autor, João Guimarães Rosa doce com as mulheres, terno com os amigos, amoroso com os gatos , forjou uma linguagem inédita,marcou a história da literatura universal e é considerado um dos 100 maiores escritores de todos os tempos4.Tudo porque emprestou às suas escritas sobre as paisagens, lendas e seres do sertão a transcendência que trazia em seu coração.
Capítulo 1
João Guimarães Rosa cresceu ouvindo todo tipo de histórias, reais ou não. Joãozito (seu apelido de infância) nasceu em Cordisburgo, no início do sertão mineiro, em 27 de junho de 1908. Foi o primeiro dos seis filhos de dona Francisca Guimarães Rosa e de seu Florduardo Pinto Rosa, “seu Fulô” dono de um secos-e-molhados, caçador de onças e contador de causos. A cidade, cujo nome significa “burgo do coração”, na época tinha apenas duas ruas, uma em frente à linha do trem, a outra atrás. A estação era parada obrigatória para os viajantes, vaqueiros e condutores de boiadas. Por lá, ziguezagueavam os matutos que iam pegar o trem para Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Esses muitos podiam ver, sempre quieto e sentadinho nos cantos da venda do seu Fulô, um menininho miúdo, de olhar franzido, que prestava muita atenção nos causos contados invariavelmente aumentados com astúcia.A imaginação de Joãozito fervilhava.Bom mesmo era “deitar no chão e imaginar histórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas”, escreveu uma vez o autor ao recordar sua infância.
No início dos anos 20, no meio do interior do Brasil, a mente do menino absorvia a magia do sertão, corria solta, e desde cedo demonstrava uma criatividade fora do comum. “Gostava de armar alçapões para apanhar sanhaços5 e depois soltá-los. Que maravilha! Puxar sabugos e espigas de milho feito boizinhos de carro... Prender formiguinhas em ilhas, que eram pedras postas num tanque raso... Um dia hei de escrever um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos”, contou Rosa.Além disso, no silêncio daquelas paragens, Joãozito voltou sua curiosidade nata para a biblioteca de sua casa. Descobriu-se um leitor voraz, e, aos 6 anos, começou a ter aulas de francês para poder ler mais e mais. O primeiro livro estrangeiro que lhe chamou a atenção foi Les Femmes qui Aiment (As mulheres que amam).Apaixonou-se então pelo estudo das línguas. E digo mais ao senhor: ele lia fazendo sons com os gravetos,tamborilando os dedos, batendo nas páginas com uma varinha6. Já ia misturando frases a sons,o que se tornaria recorrente em sua obra.Só tirava o olho dos livros e o ouvido dos causos, ou largava seus brinquedos, para ver o embarque da boiada urucuiana, vinda lá do “sertão mais sertão”7, a região do Urucuia, no norte, nas fronteiras de Minas Gerais com a Bahia. “Esses gerais são sem tamanho” 8.
Capítulo 2
Momentos importantes da infância de Guimarães, aliás, estão registrados em seus livros. Talvez o mais significativo desses registros tenha sido quando percebeu por que tinha de ler tão de pertinho, curvadíssimo sobre o livro: era míope e não sabia. Quando usou seus primeiros óculos, tudo mudou. “Todo tremia, quase sem coragem de dizer o que tinha vontade. Por fim, disse, pediu.O doutor entendeu e achou graça. Tirou os óculos, pôs na cara de Miguilim”, escreveu na obra Corpo de Baile Manuelzão e Miguilim9. Passou a ver beleza em tudo. “Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas.” Outro marco para ele foi quando deixou sua cidade para ir estudar em São João del Rei, onde existiam as melhores escolas da região. Deixava o caldeirão de sons e histórias do interior, largava da saia da Mãe Chiquitinha e da Vó Chiquinha, como a elas se referia, para ir aprender com os homens das cidades. A despedida foi descrita com a doçura que caracterizava seu modo de ver e viver o mundo: “Nem sabia o que era alegria e tristeza. Mãe o beijava. A Rosa punha-lhe doces-de-leite nas algibeiras, para a viagem. Papaco-o-Paco10 falava, alto, falava”.
Capítulo 3
Na escola, a sapiência do menino saltava aos olhos, surpreendendo exigentes professores com sua inteligência e aplicação constantes, incomuns para sua idade. Um de seus mestres foi Antonio de Lara Resende11, pai do escritor Otto Lara Resende.“Meu pai se lembrava do menino inteligente, como contou em suas memórias”, escreveu Otto em artigo12.E contou mais: um dia seu pai flagrou o jovenzinho Rosa a ler, durante a aula, nada menos que um livro de Camilo Castelo Branco, dono de escrita realista (e nem sempre fácil), grande nome da literatura portuguesa do século 19. Rosa ganhou então uma repreensão e a missão de escrever algumas dezenas de vezes um preceito moral que louvava a leitura, porém apenas em hora adequada. Por sorte, não o seguiu. Preferia o convívio dos livros ao convívio social (até na banheira lia um livro após o outro sua biblioteca pessoal chegaria a 3 mil títulos). Consciente de sua dedicação incessante, certa vez, ao receber nas bochechas um entusiástico elogio, disse: “Genialidade? Não. É trabalho, trabalho e trabalho”.Mergulhou no universo da palavra e chegou a aprender línguas apenas para ler os originais de livros que o interessavam. Queria que sua última obra, a derradeira antes de morrer, fosse um dicionário. Procurava a linguagem original da humanidade, a anterior à Torre de Babel. “Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras.Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional”, relembrou Rosa.
Nascem assim dessa imersão no mundo da linguagem invenções só suas: mais de 8 mil palavras. O senhor quer exemplos? Demoningenhado, mistura de demônio e engenhado, que é algo inventado pelo demo; gologolão, quando se bebe algo em grandes goles; tresnoitação, quando se passa a noite em claro; aletria, que quer dizer analfabeto, ou privado de letras. E ainda passou a utilizar as palavras onde antes ninguém as podia conceber. “Vigia: que palmeira de coragem!”, uma inusitada (e bela) metáfora para sugerir a altura, o vigor e a majestade da árvore. “Creio que nenhum escritor oferece uma visão mais significativa das potencialidades do nosso idioma como Guimarães Rosa”, diz a autora Nilce Sant’Anna Martins em O Léxico de Guimarães Rosa, um inebriante catálogo e estudo das invenções do autor, que muitas vezes grudava pedacinhos de palavras de um idioma no outro, além de dar forma escrita a dialetos arcaicos do português, falados nos sertões. “Não desperdiço palavras.Macaco meu veste roupa.”
Capítulo 4
Ao se tornar adulto,Rosa floresce, germina família e se desenvolve por meio de múltiplas atividades, antes de abraçar a carreira de escritor. Em 1930, ao completar 22 anos, casa-se com Lígia Cabral Penna.Com ela, tem duas filhas:Vilma e Agnes. Ainda no mesmo ano, forma-se médico, com o intuito de “aprender rapidamente a estancar o fluxo do sofrimento humano”13, como explica sua filha,Vilma Guimarães Rosa, a Vilminha15. Nos dois anos seguintes atende (como clínico geral) em Itaguara, oeste de Minas, onde cobrava pelas consultas de forma pitoresca: cestas de ovos, bolos, aves e caixas de doces. Nesse convívio, assimila a essência dos homens da terra e aprende a linguagem característica dos habitantes locais inclusive a de grupos de ciganos,que lotavam acampamentos visitados pelo médico,por onde adorava ficar proseando. Seu primeiro casamento se desfaz poucos anos depois, não antes de Rosa se tornar soldado voluntário da Força Pública, na Revolução Constitucionalista, em 1932, quando se tornou oficial-médico.
Um amigo de armas, que fez no convívio “próximo da morte que a guerra traz”, espantado com seu conhecimento de línguas, sugeriu que prestasse o concurso do Itamaraty. Como carecia de recursos médicos para salvar todos seus pacientes o que lhe causava transbordamentos de emotividade e lágrimas , resolve mudar de profissão. Faz a prova em 1934 e consegue o segundo lugar, passando no concurso para diplomata do Itamaraty.Por essa época, escrevia seus primeiros contos, além dos versos que mais tarde se reuniriam no volume póstumo Magma.A escrita lhe traz exaltação e deslumbramento, e cria, em sete meses,um conjunto de contos chamado Sezão,que continha o futuro clássico A Oportunidade de Augusto Matraga (anos mais tarde, ao rever lentamente seus escritos,muda o nome da obra para Sagarana, e o título do conto para A Hora e a Vez de Augusto Matraga).Mas a carreira de diplomata faz do mundo seu sertão,afasta-o momentaneamente das letras e o leva para a Europa.
Era um diplomata nato e intuitivo: sabia, como ninguém, lidar com diferentes tipos de pessoas. E enfrentar situações cabulosas. Como cônsul-adjunto em Hamburgo, em 1938, junto com sua segunda esposa,Araci de Carvalho, a Ara, que conhecera no consulado, enfrentou os nazistas e salvou inúmeras vidas da morte certa. Ajudou Ara a esconder muitos judeus, e obteve documentos falsos para famílias inteiras que com isso conseguiram deixar a Alemanha passando calmamente pela alfândega, fingindo serem “não-judeus”. Em reconhecimento a essa atitude, o diplomata e sua mulher foram homenageados, em abril de 1985, com a mais alta distinção que o governo de Israel presta a estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém. Além da coragem,a memória fotográfica prodigiosa de Rosa foi muito útil no conflito, pois “decorava códigos secretos inteiros e os transmitia sem omitir uma vírgula”, conta Vilma. O escritor, até ele, quase não sobreviveu a essa época. Certo dia, saiu de casa para dar uma volta e, quando voltou, viu sua morada em escombros e cheia de fumaça, após um bombardeio-surpresa.
Preso em 1942, quando o Brasil declara guerra à Alemanha, é libertado em troca de diplomatas alemães e segue para Bogotá, na Colômbia, como secretário de embaixada. É chamado para voltar ao Brasil em 1944, quando passa cinco meses reescrevendo completamente seus contos no Rio de Janeiro.Nasce, em definitivo, Sagarana,que se transforma rapidamente em um grande sucesso.Transborda,finalmente, além de tudo,o escritor João Guimarães Rosa.Mesmo assim,não só mantém sua carreira como diplomata como a faz de forma tão brilhante quanto escreve integra a Comissão da Paz, em Paris, em 1946, discute e define fronteiras do Brasil em 1948, na IX Conferência Interamericana em Bogotá, entre outras atividades, até chegar ao cargo de embaixador em 1958 na capital francesa.
Capítulo 5
Em 1952, retorna ao sertão, em busca de suas maiores inspirações: o mundo sem janelas nem portas, a natureza esplendorosa e seus animais, o berço familiar e as alcunhas, genitivos, topônimos, diminutivos, o áspero da solidão14. De tudo tomava notas, fazia desenhos (em muitos cadernos),“não raro encarapitado num cavalo, com a caderneta pendurada ao peito como um colar”, como o descreveu o jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck15. Embrenha-se em travessia de 45 dias junto a uma comitiva de boiadeiros (entre eles Manuelzão16 e Zito) e levam uma boiada da fazenda da Sirga (município de Três Marias) até a fazenda São Francisco, em Araçaí, localidade vizinha de Cordisburgo, num percurso de 40 léguas. Nas conversas, aprende de vez o linguajar do jagunço do sertão,do tocador de boiada, do contador de causos à beira da fogueira, dos mentirosos, das crendices, daqueles que no café da manhã comem feijão com torresmo e pinga17.
Dali retorna ao Rio de Janeiro e passa a escrever Corpo de Baile , o segundo livro de contos, outra obra-prima. Tudo corria conforme o planejado, até que o insólito lhe toma sem avisar numa sexta-feira, após o expediente no Itamaraty. Uma de suas narrativas “pegou o freio nos dentes e disparou noite adentro.Rosa escreveu sábado inteiro e entrou pela madrugada.Trabalhou domingo e só parou no amanhecer de segunda-feira”, conta Otto Lara Resende18. Surgia do seu trabalho obstinado seu único romance (594 páginas maciças, sem o respiradouro dos capítulos), que em princípio seria apenas um conto, o clássico universal Grande Sertão: Veredas.
Em Grande Sertão estão os personagens mais cativantes da prosa rosiana: Riobaldo, Diadorim e Hermógenes. Mais que isso, o chefe de jagunços Riobaldo vive o conflito de suas vontades contra o centro do mundo. “O diabo na rua, no meio do redemuinho, representa um choque de duas forças no centro do Brasil, da nossa idéia de país contra a violência que tenta arrastar o Estado e a cidadania ao medo. E até hoje são essas as questões centrais do homem: como viver no meio desse redemoinho de forças que é a nossa realidade?”, comenta o professor Luiz Roncari, da Universidade de São Paulo.Antonio Candido sintetiza a obra:“Nela, há de tudo para quem souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavelmente realizado. Cada um poderá abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício: mas em cada aspecto aparecerá o traço fundamental do autor: a absoluta confiança na capacidade de inventar”19. O escritor Antonio Callado assim escreveu sobre o autor, comparando-o a um dos maiores escritores dos nossos tempos: “Joyce (o irlandês James Joyce) também é universal e moderno. Mas a conversa do Rosa é mais esquisita. A gente só chega à universalidade dos seus heróis tirando-lhes várias camadas, como quem desfolha uma cebola... E às vezes cuidado! pela-se o couro do vaqueiro e sai uma mulher de dentro, com lindos seios”20. Pouco tempo após o lançamento simultâneo de Corpo de Baile e Grande Sertão, em 1956, Rosa se torna objeto de debates no Brasil e no exterior. Seus livros são traduzidos nos Estados Unidos, Itália, Espanha e Alemanha (onde Grande Sertão: Veredas alcança três edições sucessivas em 1964).
Capítulo 6
O universo de Guimarães Rosa impressionou o mundo. Ensaístas estrangeiros estudavam sua obra e chegaram a apontar seu nome para o Prêmio Nobel.Mas quem mais conseguiu explicá-lo foi ele mesmo: “Eu carrego um sertão dentro de mim, e o mundo no qual eu vivo é também o sertão.As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras, para mim são a minha maior aventura. Escrevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito.Vivo no infinito, o momento não conta”.Me despeço do senhor explicando o que antes disse que era complicado: ele adiou, como pôde, sua imortalidade. Eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras, inventou desculpas para adiar sua posse por quatro anos seguidos. Tinha ano que viajava, em outro dizia que estava meio mal de saúde, às vezes alegava falta de tempo.Apenas a seus íntimos contava sua superstição:“Se tomar posse, eu morro”, dizia, com um sorriso desconfiado. Por fim, abraçou seu destino de imortal. Em 16 de novembro de 1967, tomou posse na Academia Brasileira de Letras, com um discurso embargado, emotivo, com lágrimas escorrendo pelo rosto em sua última fala.“As pessoas não morrem, ficam encantadas”21. Seria pressentimento? Três dias depois, em 19/11/1967, morre subitamente em seu apartamento em Copacabana. O menino miudinho observara o mundo, e contara histórias até o fim.“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”, disse sobre a vida.Mais três dias se passam, e o poeta Carlos Drummond de Andrade traduz, no poema “Um Chamado João”22, a consternação que a morte prematura do grande escritor (com apenas 59 anos) causou e ainda causa para os que transpõem as barreiras da linguagem e se deliciam com sua obra:
“Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar”.
1. Cartapácio: Calhamaço, livro muito grande.
2. O tal do jurado: Crônica Conversa de Bastidores, de Graciliano Ramos, publicada na revista A Casa em julho de 1946.
3. Sagarana: Vocábulo inventado com as palavras saga (narrativa em prosa, histórica ou lendária) e -rana (do tupi, semelhança).
4. Um dos 100 maiores escritores de todos os tempos: Norwegian Book Clubs, 2002.
5. Sanhaço: Designação comum a vários passarinhos.
6. Com uma varinha: Depoimento de Vilma Guimarães Rosa à revista Manchete em 27 de fevereiro de 1982.
7. Sertão mais sertão: Expressão utilizada em Cordisburgo e arredores para designar os lugares mais distantes do sertão.
8. Esses Gerais são sem tamanho: in Grande Sertão:Veredas.
9. Corpo de Baile - Manuelzão e Miguilim: O original de Corpo de Baile foi desmembrado em três; um deles,Manuelzão e Miguilim.
10. Papaco-o-paco: Papagaio. Aqui, um exemplo de como Rosa adulterava as palavras, misturando-as a sons.
11. Antonio de Lara Resende: Autor de gramática histórica, jornalista e criador do Colégio Padre Machado, em São João del Rei.
12. Escreveu Otto em artigo: Publicado na Folha de S.Paulo em 24 de novembro de 1991.
13. Sofrimento humano: Depoimento de Vilma à revista Manchete em 27 de fevereiro de 1982.
14. O áspero da solidão: Referência ao texto de Affonso Romano de Sant’Anna publicado no O Globo em 26 de junho de 1988.
15. Como um colar: Publicado no Jornal do Brasil em 26 de junho de 1990.
16. Manuelzão: Velho sertanejo de prosa fina, foi o líder da comitiva de boiadeiros à qual Rosa se juntou.
17. Torresmo e Pinga: A travessia feita por Rosa foi registrada pela revista O Cruzeiro em 1952.
18. Conta Otto Lara Resende: Publicado na Folha de S.Paulo em 24 de novembro de 1991.
19. ... De inventar: Originalmente publicado na revista Diálogo, reproduzido no Jornal do Brasil em 21 de novembro de 1967.
20. Com lindos seios: Artigo Voz de Rosa, publicado na revista Manchete em 1967.
21. Ficam encantadas: Depoimento de Vilma Guimarães Rosa à revista Manchete em 27 de fevereiro de 1982.
22. Um chamado João: Publicado no jornal Correio da Manhã em 22 de novembro de 1967.
A obra de João Guimarães Rosa (Cordisburgo, 1908 Rio de Janeiro, 1967) está comemorando um duplo aniversário este ano. Há 60 anos era publicado Sagarana, seu primeiro livro de contos, prenúncio de uma arte literária que mescla, como poucas nas letras mundiais, a riqueza da tradição popular, a invenção lingüística e a imaginação mais fecunda. Também em 2006 Grande Sertão:Veredas, a obra-prima de Rosa e um dos maiores romances do século 20, completa cinco décadas de vida fascinando leitores por sua alta carga lírica e pelo engenho verbal do autor. São das histórias do escritor mineiro, ambientadas em veredas e caatingas que alcançam dimensões míticas graças ao conteúdo muitas vezes fantástico, personagens inesquecíveis como Riobaldo,Diadorim, Miguilim e Manuelzão este, por sinal, um personagem real. De carne, osso e poesia.
Caminhos de Rosa
Bem no meio do sertão, na divisa entre Minas Gerais e a Bahia, o Parque Nacional Grande Sertão Veredas é a morada do rio Urucuia, retratado em Grande Sertão:Veredas. As matas da região abrigam tucanos, garças, araras, papagaios, maritacas, cotias, emas, tamanduás-bandeiras, antas, onças-pardas e lobos-guarás. Já o bicho homem por lá pouco se atreve, arredio ao sol inclemente de suas paragens, com poucos locais para descanso. Para quem arrisca uma travessia, a árida experiência faz lembrar as enormes nuvens de poeira e os longos trechos de terra batida entre Cordisburgo e Três Marias, viagem realizada pelo autor em 1952.
Marcas do sertão
O calor transborda incessante. A flora, que vive sob temperaturas de mais de 40 graus, muitas vezes parece morta.Um engano para olhos pouco atentos: quando as águas do inverno desabam, o verde floresce com rapidez, tamanha é a força que as plantas do cerrado guardam dentro de si, em seu tronco e raiz.Como o próprio povo do sertão, que carrega uma sabedoria amistosa, porém desconfiada. Guimarães Rosa seguiu a caravana de Manuelzão, o líder de peões e contador de histórias Manuel Nardy (nesta página), e anotava tudo que podia. Com isso, coletou material para a criação de Grande Sertão:Veredas, além de ter feito de Nardy um dos personagens principais de Corpo de Baile.
Veredas sem fim
Morros, colinas, campos vastos, terra larga e árida. Ao tanger as boiadas, ou cavalgar de um vilarejo a outro, o sertanejo de Minas carregava grandes cantis d’água feitos de couro.Mas a sede sempre se fez presente nessas paragens. Em alguns locais especiais surgem as veredas, regatos formados pela confluência de inúmeras nascentes. Chega a hora de arrear,molhar o rosto, lavar os braços, deixar o cavalo serenar e, em goles generosos, saciar a sede do corpo e da alma de quem vence inúmeras léguas por onde o asfalto ainda não chegou.
Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site
Destaques da edição
Edições anteriores
Assine a revista
Folheie a edição