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Fritjof Capra é um dos grandes pensadores e ativistas que hoje trabalham por uma sociedade sustentável, ecologicamente eficiente e contrária ao capitalismo global. Esse físico austríaco tornou-se uma celebridade quando começou a misturar os conhecimentos da física quântica com os do misticismo oriental. Dono de saber e talento inegáveis, descolado o bastante para circular em territórios tão diferentes sem atrair ou causar problemas, Capra apresenta em sua obra a proposta de que tudo no Universo está interligado por meio de redes complexas.
A decolagem de Capra começou nas décadas de 70 e 80, quando escreveu os dois livros que se confirmariam como seus best sellers: O Tao da Física (1975) e O Ponto de Mutação (1982). De lá para cá, ele vem reiterando suas teorias em outros bons lançamentos, refinando algumas idéias e acrescentando descobertas colhidas em todos os campos do conhecimento, principalmente nos âmbitos econômico, ecológico e humano.
"Quando o conheci, fiquei surpresa pela sua absoluta falta de pretensão e nenhuma vaidade intelectual, traços tão comuns em cientistas", diz Miriam Duailibi, coordenadora geral do Instituto Ecoar, que trabalha com projetos de educação ambiental e trouxe Capra ao Brasil em agosto. "É um sujeito bem-humorado, aberto para o novo. E se coloca na posição de grande articulador, não como um solucionador, mas como alguém que faz as conexões. Capra sempre tem um grupo de trabalho para indicar, ou um livro, uma tecnologia que está sendo usada em tal e tal país. Ele próprio afirma estar convicto de que não há nada de novo a acrescentar, que temos apenas de acertar as pontas."
Um dos primeiros ídolos de Capra foi Werner Heisenberg (1901-1976), co-fundador da física quântica, renomado pesquisador dos fenômenos subatômicos. Foi aos 19 anos, nos livros desse cientista alemão, que ele abriu as portas de uma nova percepção da realidade. Sabendo disso e observando-se agora seu jeito sisudo e reservado, fica difícil imaginar que Capra tenha sido um hippie militante e cabeludo nos anos 60. "Essa época foi fundamental para o meu trabalho, proporcionou as mudanças mais radicais de minha vida", diz ele.
Em 1966, ele se formou em física pela Universidade de Viena e passou seus dois primeiros anos de pesquisas de pós-doutorado na Universidade de Paris. Em seguida, mudou-se com a esposa Jacqueline para os Estados Unidos, onde assumiu o posto de professor e pesquisador da Universidade da Califórnia.
Mesmo com o fervilhar cultural e político da época, o que realmente acabou amparando a filosofia de Capra foi o misticismo oriental. A descoberta aconteceu quando ele ainda morava em Paris: seu irmão deu-lhe de presente uma antologia de livros dos poetas beat, os jovens artistas e intelectuais que se declaravam contra o modo de vida burguês e os valores da sociedade de consumo - para citar alguns, Jack Kerouac, Lawrence Ferlinghetti, Allen Ginsberg, Gary Snyder e Alan Watts. Muitos deles usavam em seus textos conceitos inspirados em filosofias orientais, como o tao e o zen-budismo. O Bhagavad Gita, clássico do hinduísmo, ele carregou embaixo do braço durante um bom tempo. "É um dos textos espirituais mais belos e profundos da Índia", diria mais tarde.
Krishnamurti dizia que, para se resolverem os problemas existenciais, é necessário ir além do pensamento, da linguagem e do tempo e libertar-se do conhecido - revelações recorrentes em grande parte das sabedorias do Oriente. Nesse instante, Capra conta ter vislumbrado seu grande dilema: como transcender o pensamento sem abandonar o compromisso com a ciência?
E outros gurus apareceriam para contribuir em sua formação multidisciplinar. A feminista Adrienne Rich foi a responsável por aguçar a consciência feminina de Capra, em torno de valores como sensibilidade, integração e intuição. Hazel Henderson, pródiga futurista, consultora de grandes economistas e até chefes de Estado, contribuiu bastante na elaboração dos conceitos sobre economia sustentável, muitos dos quais o autor de O Tao da Física agora difunde em suas viagens pelo mundo.
Conforme suas palavras - e também as de muito mais gente desde tempos imemoriais - a interdependência é a base da organização de todos os seres vivos no planeta. Por isso, é de importância crucial a forma como a sociedade se organiza.
Já a respeito dos projetos ecológicos com os quais está envolvido, Capra afirma que o objetivo é sempre elevar a sustentabilidade da teia da vida, inspirado no fato de que o ecossistema é uma comunidade que tem a capacidade inerente de sustentar a existência e esse deve ser o nosso objetivo.
O primeiro passo é que toda a sociedade seja ecologicamente educada, pois a sustentabilidade depende da nossa habilidade de entender o ecossistema, com o qual aprendemos que existem redes de cooperação naturais e que a diversidade assegura a sobrevivência da vida. Por isso, Capra fundou em Berkeley, no estado da Califórnia, o Centro para a Alfabetização Ecológica, que promove o pensamento ecológico e sistêmico em escolas de primeiro e segundo graus, e viaja pelo mundo dando palestras sobre a importância e a urgência do assunto.
A próxima visita de Fritjof Capra ao Brasil vem sendo anunciada para o final de novembro, quando ele deve tomar parte na Conferência Nacional do Meio Ambiente, em Brasília.
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