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O arquiteto holandês Aldo van Eyck costumava dizer que uma casa é uma cidade minúscula, e uma cidade é uma casa imensa. Pense nessa comparação no seu dia-a-dia. As semelhanças não demoram a saltar aos olhos: da mesma forma que você vai do escritório ao quintal, você deixa o trabalho e faz um passeio no parque. Outro exemplo: vai do restaurante ao cinema assim como da cozinha à sala de TV depois do almoço. Certo, tanto a casa quanto a cidade são lugares onde se vivem momentos cotidianos. Mas então por que você não cuida da cidade com o mesmo esmero com que trata a casa?
Não vale dizer que isso é responsabilidade da prefeitura. Tudo bem que pagamos impostos e elegemos a cada quatro anos representantes para defender os interesses coletivos, mas isso é suficiente apenas para a infra-estrutura: saneamento básico, eletricidade, limpeza das ruas, cabos para gás. Aposto que sua "cidade minúscula" vai muito além. As paredes não estão no reboco e o chão no cimento, estão? Provavelmente tudo está bem pintado, com quadros pendurados, tapetes, plantas, porta-retratos e mil outros detalhes que fazem de sua morada o doce lar.
Um ambiente bem cuidado faz bem ao espírito. E isso é tão evidente que dá até para adivinhar como é a parte da cidade de que você mais gosta. Quer ver? Pense no quarteirão da sua casa. Dê uma volta mental ao redor dele. Que trechos você acha mais agradáveis? De quais você não gosta? Deixa eu ver se acerto. Provavelmente os pedaços menos agradáveis têm muros altos, calçadas descuidadas, sem vida. Talvez também haja prédios que cubram seus jardins com paredes de concreto e casas com grades altas e avisos de "cuidado: cão perigoso" que, se dissessem "pessoas: queremos distância", daria no mesmo. A existência de lugares assim se deve, em grande parte, à falta de atenção das pessoas com o que vai do portão de casa para fora. Como se, do passeio em diante, o problema fosse do governo, das ONGs e do que mais puder amenizar a ausência de um cidadão que faça mais do que a lei o obriga.
Também não adianta varrer o lixo e jogá-lo debaixo do tapete só para falar que fez. Ser gentil com a cidade só resolve se a atitude for espontânea, para melhorar a vida coletiva. E, para um sujeito deixar a comodidade solitária de sua vida privada e fazer algo pelo todo, é preciso que se sinta parte dele: esta cidade é minha casa, faço parte dela e, por isso, tenho que cuidar deste espaço. Ao fazer isso, acaba chamando a atenção do outro: acorde, esse lugar é nosso, vamos melhorá-lo. Os círculos virtuosos precisam de um empurrão para entrar em movimento.
A parte boa é que muitas pessoas já despertaram para isso. Os trechos agradáveis do seu quarteirão provavelmente têm árvores que dão uma boa sombra e, de quando em quando, até frutos. Ou então as casas e os edifícios oferecem algo a quem passa, nem que seja a visão agradável de uma fachada bem pintada, um jardim à vista dos passantes ou uma marquise que abriga da chuva. As calçadas provavelmente são desimpedidas e cuidadas. Pois é, a cidade também está cheia de pequenas oferendas à espera de olhares atentos para detectá-las.
E foi para celebrar essa amizade que surgiu, em Belo Horizonte, o Prêmio IAB Gentileza Urbana. No início dos anos 90, a Associação Mineira de Defesa do Ambiente fazia uma lista de entidades poluidoras da cidade, e o Instituto dos Arquitetos do Brasil de Minas Gerais (IAB-MG) quis fazer o mesmo com empresas do ramo da arquitetura e construção. Porém, o então diretor de marketing da regional, João Grillo, propôs o contrário: homenagear aqueles que faziam coisas boas pela cidade. Assim, em 1993, surgiu a premiação que, ainda hoje, ocorre ano a ano. A boa nova foi descobrir que o prêmio mineiro impulsionou a criação de eventos semelhantes no Rio de Janeiro, a partir de 2000, e em Maceió, ano passado. Todos realizados pelas respectivas regionais do IAB.
Ficou o exemplo. Tão bom quanto o dos sinos do Mosteiro Beneditino Nossa Senhora das Graças, na mesma cidade, premiado um pouco antes, em 1994. Na época de sua construção, em 1949, o mosteiro ganhou uma torre que não suportou o peso dos cinco sinos doados ao local nos anos 60 por uma família que preferiu manter-se no anonimato. A encomenda, vinda da Alemanha, demorou cinco meses para chegar ao destino, mas logo teve que ser posta de lado: a torre balançou com o peso e os sinos foram retirados. Somente em 1980 foi conseguido apoio para reforçar a construção e, "para nossa alegria", como diz a irmã Agostinha, os sinos nunca mais pararam de tocar. Aos domingos e em dias de festas religiosas os moradores das imediações escutam as badaladas romperem a mata que cerca o mosteiro, no alto de uma colina, e invadirem as ruas do bairro Vila Paris.
Mas não é preciso botar a mão no bolso para fazer à cidade uma doação, que é o espírito da gentileza urbana. Quer tornar seu quarteirão mais agradável? Que tal aparar a grama da calçada, separar o lixo ou pintar a fachada de casa? O primeiro passo é perceber que você pode fazer algo pela cidade e ficar atento às suas possibilidades. Foi assim que nasceu o Teatro na Janela, uma série de esquetes que a Cia. Artesãos do Corpo apresentou toda quarta-feira, durante dois anos, da janela de um prédio do centro de São Paulo. Da calçada do outro lado da rua, moradores e transeuntes desavisados paravam para olhar o teatro que saía da janela. As apresentações não duravam mais do que dez minutos, mas serviam para fazer as pessoas interromperem seus trajetos apressados, alheias ao que as cercava, e recuperar o hábito de estar na cidade, contemplando o que acontece. Volta e meia, o grupo se reúne novamente, para uma "teatrada" esporádica. Nunca se sabe quando. Melhor assim, por conta do inesperado.
Maceió também contabiliza uma doação artística, que no ano passado ficou entre os dez ganhadores do Prêmio Gentileza local. No bairro Jaraguá, onde nasceu a cidade, um grupo de 36 artistas plásticos pintou painéis influenciados pela arte naïf, xilogravura e pintura afro, uma galeria a céu aberto onde antes só se via o cimento cinza dos muros dos trapiches e armazéns de mercadorias.
Aliás, surpreender é uma das maiores delícias das gentilezas urbanas. Que o diga um morador da também paulistana Vila Mariana. Num dia de 1983, Airton Camargo topou com os portões de um casarão da rua Santa Cruz abertos. Resolveu entrar e conferir o que mais havia além das árvores frutíferas que transbordavam do lote de 13 mil metros quadrados e deparou com a primeira edificação modernista do país, uma casa erguida em 1927 e esquecida no meio do mato. No mesmo dia, soube que os proprietários do terreno o haviam vendido para a construção de um prédio e decidiu agir. Juntou moradores da região e formou a Associação Pró-Parque Modernista, que lutou para que o imenso quintal virasse um parque público. E assim foi. Em 1986, o local foi tombado como bem de importância nacional. Airton o chama de parque da contemplação, "o lugar ideal para passear com o filho, ler jornal. Quem entra tem que andar em um novo ritmo, pelos caminhos de pedra". Um ambiente intimista e acolhedor, assim como só mesmo o quintal de casa.
Ela gostou tanto da idéia de tocar sem compromisso que chamou mais quatro músicos e juntos formaram o Choro na Feira. Há quatro anos, aos sábados à tarde, eles se apresentam gratuitamente sob a mesma sombra, atraindo moradores e curiosos. Alguns até se arriscam a dar uma canja.
www.choronafeira.com
Artesãos do Corpo. Diante das cenas, o público tinha reações diversas, muitas delas ainda presentes na memória dos atores. Teve a senhora que exclamou: "Agora já vi de tudo nessa vida". O executivo que interrompeu a conversa no celular: "Espera um pouco, estou vendo uma coisa ali".
E teve gente que foi além, como o Paulo, entregador da mercearia em frente ao estúdio, que participou de uma das peças. O projeto acabou, mas de vez em quando volta.
www.ciaartesaosdocorpo.com.br
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